Johann von Goethe, que atravessou o território pré-romântico do Sturm und Drang para o classicismo de Weimar, asseverou em tom imperativo que, em matéria de arte, mesmo que cada um a seu modo, todos deveriam ser gregos. E não é que até o euromodernismo, de índole tão renovadora, tão revolucionária, não resistiu à tentação de retomar a cultura clássica helênica? Exemplo contundente disso é uma das obras mais emblemáticas da ousadia modernista europeia, o Ulisses de Joye, paródia atualizante da Odisseia de Homero. Embora distante do empenho iconoclasta da década de 1920 brasileira, Jorge de Lima não deixa de atestar a validade do que vamos dizendo, com seu A invenção de Orfeu. O poema abaixo transcrito (1918), de Iwan Goll, aliás, tematiza também justamente o mito - tão caro à literatura - do amante de Eurídice. Trata-se de um dos poemas, enquadrados no expressionismo alemão, que mais me tocam, pela simplicidade, pelo humor melancólico, pela construção metafórica de uma esperança inútil, pelas imagens que trazem o maior músico e poeta da mitologia grega ao mundo burguês e sem paz das primeiras décadas do século XX. É curioso como, muitas vezes, os expressionistas produziram uma arte engajada, ansiosa de uma melhoria, mas descrente de que isso viesse a acontecer de fato. Goll, diga-se de passagem, é daqueles casos de estrangeiros que compuseram o expressionismo germânico. O poeta, de nome verdadeiro Isaac Lang, nasceu na França. Seu poema segue na tradução de Claudia Cavalcanti (uma boa pedida para um início de carnaval):
O NOVO ORFEU
Orfeu
Músico do outono
Embriagado do mosto de estrelas
Ouves a Terra girar
Hoje com mais força que sempre?
O eixo do mundo enferrujou
À tarde e de manhã as cotovias voam para o céu
Procuram em vão o infinito
Leões entediam-se
Riachos envelhecem
E os miosótis pensam em suicídio
Cansada está a boa natureza
Diluído o oxigênio de eternas florestas
É sufocante o ozônio das alturas
Nuvem chove e deseja a lama
Homem sempre volta aos Homens
Eterno para nós é o destino
Eurídice:
A mulher a vida incompreendida
Todos são Orfeu
Orfeu: quem não o conhece.
1,78 m de altura
68 quilos
Olhos castanhos
Testa estreita
Chapéu engomado
Certidão de nascimento no bolso do casaco
Católico
Sentimental
A favor da democracia
E músico de profissão
Esqueceu a Grécia
E o canto matinal do alcião
A sombria tristeza dos cedros
O casamento das flores
E tanta amizade de riachos ameninados.
De que lhe valem hoje genciana e camurça
Os Homens estão na miséria
Prisioneiros de profundo submundo
Em cidades de argamassa
De lata e papel
Ele precisa libertá-los
Os pobres de lua de vento e de pássaros
Senhor, para
Tu, em bem talhado fraque
Pare: apresenta o coração!
Cultura centro-europeia
Com imperiais coroações
Empresas construtoras
Lutas de boxe
Ó contemporâneo, meu prezado senhor!
Orfeu veio a ti
Das colinas gregas
Para o atalho do cotidiano
Desceu o novo poeta
Encontra-o em toda parte onde lábios anseiam
Onde corações passam fome
Ele cobre com música, como um abraço quente,
Todas as tuas dores do mundo
Orfeu canta aos Homens a primavera
Na quarta-feira entre meio-dia e meia e uma e meia
Como tímido professor de piano
Liberta uma moça da avareza da mãe
À noite em ambientes mundanos
Entre yankee girl e encantador de serpentes
O terceiro número é o seu couplet sobre o amor humano
À meia-noite um palhaço
No circo dourado de sol
Ele acorda com grande timbale os que dormem
Aos domingos ante as ligas de guerra
No salão de dança ornado com carvalho
O maestro das canções de liberdade
Esquelético organista
Em silenciosas sacristias
Toca docemente órgão para Meninos Jesus
Em todos os concertos por assinatura
Com Gustav Mahler
Atravessa cruelmente os corações
No cinema do subúrbio, ao martírio do piano,
Deixa o coro dos peregrinos
Lamentar a morte da Virgem -
Gramofones
Pianolas
Órgãos
Espalham a música de Orfeu
Na Torre Eiffel
Em 11 de setembro
Ele dá um concerto radiofônico
Orfeu torna-se um gênio:
Viaja de país em país
Sempre no carro-leito
Sua assinatura facsimilada
Para álbuns de poesia
Custa vinte marcos
E de Atenas vai para Berlim
Através das auroras alemãs
Lá espera na Estação da Silésia
Eurídice! Eurídice!
Lá está a saudosa amada
Com o seu velho guarda-chuva
E amarrotadas luvas
Tule sobre o chapéu de inverno
E na boca batom demais
Como antigamente
Sem música
Pobre da alma
Eurídice: a humanidade não libertada!
E Orfeu olha em volta
Ele olha em volta - e já quer abraçá-la
Tirá-la pela última vez do seu Orco:
Ele estende a mão
Levanta a voz
Em vão! A multidão não o ouve mais
Ela recua para o submundo o cotidiano o sofrimento!
Orfeu sozinho na sala de espera
Parte com uma bala o coração em dois!

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