Propus-me a falar aqui apenas de expressionismo alemão neste primeiro semestre de 2012 e tenho me referido a alguns nomes não ligados diretamente, em termos de época e de concepção, a essa vanguarda do modernismo europeu. Antes Wagner, pouco depois Marilyn Manson, e agora Byron. A questão, entretanto, não é apontar qualquer vestígio pré-expressionista (aliás, inexistente) na obra de uma das maiores e mais influentes personalidades de todos os tempos. Todavia, num dos discursos que ele proferiu na Câmara dos Lordes, há exatamente um século, defendeu fervorosamente os direitos dos ludistas de se rebelarem, em oposição a praticamente todos ali no Parlamento e à opinião pública (ou, melhor diria, publicada) da Inglaterra. Como se sabe, o ludismo foi um movimento revoltoso de artesãos e operários britânicos contra o emprego de máquinas em fábricas, recurso que desempregava numerosos homens, mulheres e crianças que, mesmo trabalhando, já viviam em péssimas condições laborais e existenciais. Ora, justamente essa viria a constituir uma das pautas de discussão do expressionismo. O filme Metropolis, de Fritz Lang, já comentado aqui, e as peças teatrais O homem, as massas e Os maquinoclastas, de Ernst Toller, ferem em cheio esse problema, resultado de um boom tecnológico e industrial, que teria por consequência a busca sequiosa de nações da Europa por expansão de mercado e fornecimento de matéria-prima mediante guerra de proporções até então jamais vistas, a que ocorreu entre 1914 e 1918. Toller abre Os maquinoclastas, obra contemporânea da Semana de Arte Moderna paulista, pondo em cena Byron a proferir seu discurso pró-ludista, pelo que é atacado verbalmente pelos demais lordes. Ridicularizado por entender mais de poesia do que de política, o poeta inglês, na breve introdução, que propõe a justaposição de duas épocas (o início do século XIX e o início do XX), é voz isolada, incompreendida, mas cônscia e humanitária - características caras ao ethos e ao pathos expressionistas. O dramaturgo alemão chega, em rubrica, a sugerir que o mesmo ator destinado a interpretar Byron encarne também o protagonista, personagem-consciência-do-autor, que não aceita a exploração desumana dos empresários, mas, por outro lado, não é aceito pelo movimento revoltoso dos proletários, e, sendo assim, é-lhe reservado desfecho trágico. Seu assassinato pelos trabalhadores atesta a visão profundamente pessimista (nisso criticamente distante da compreensão histórica do marxismo) de Ernst Toller.
Lord Byron, que acabou sua vida lutando pela Independência da Grécia, amava a liberdade. E viu no ludismo manifesto popular legítimo desse amor. Além do discurso, sobre o qual Leo Huberman tece interessantes considerações, em História da riqueza do homem, o autor de Don Juan também escreveu poema dedicado a Ned Ludd, um dos líderes do movimento maquinoclasta que foi batizado com derivação de seu próprio nome. É digno de nota que Byron, bastante ousadamente, denomina-o de rei-maior, como se pode ler abaixo:
Lord Byron, que acabou sua vida lutando pela Independência da Grécia, amava a liberdade. E viu no ludismo manifesto popular legítimo desse amor. Além do discurso, sobre o qual Leo Huberman tece interessantes considerações, em História da riqueza do homem, o autor de Don Juan também escreveu poema dedicado a Ned Ludd, um dos líderes do movimento maquinoclasta que foi batizado com derivação de seu próprio nome. É digno de nota que Byron, bastante ousadamente, denomina-o de rei-maior, como se pode ler abaixo:
As the Liberty lads o'ver the sea
Bought their freedom, and cheaply, with blood,
So we, boys, we
Will die fighting, or live free,
And down with all kings but King Ludd!
When the web that we weave is complete,
And the shuttle exchanged for the sword,
We will fling the winding-sheet
O'er the despot at our feet,
And dye it deep in the gore he has pour'd.
Though black as his heart its hue,
Since his veins are corrupted to mud,
Yeat this is the dew
Which the tree shall renew
Of Liberty, planted by Ludd!

Apesar do tempo e do espaço, e embora seus cem anos, é um discurso que ainda tem algo a dizer.
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