segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

100 anos de um discurso histórico

Propus-me a falar aqui apenas de expressionismo alemão neste primeiro semestre de 2012 e tenho me referido a alguns nomes não ligados diretamente, em termos de época e de concepção, a essa vanguarda do modernismo europeu. Antes Wagner, pouco depois Marilyn Manson, e agora Byron. A questão, entretanto, não é apontar qualquer vestígio pré-expressionista (aliás, inexistente) na obra de uma das maiores e mais influentes personalidades de todos os tempos. Todavia, num dos discursos que ele proferiu na Câmara dos Lordes, há exatamente um século, defendeu fervorosamente os direitos dos ludistas de se rebelarem, em oposição a praticamente todos ali no Parlamento e à opinião pública (ou, melhor diria, publicada) da Inglaterra. Como se sabe, o ludismo foi um movimento revoltoso de artesãos e operários britânicos contra o emprego de máquinas em fábricas, recurso que desempregava numerosos homens, mulheres e crianças que, mesmo trabalhando, já viviam em péssimas condições laborais e existenciais. Ora, justamente essa viria a constituir uma das pautas de discussão do expressionismo. O filme Metropolis, de Fritz Lang, já comentado aqui, e as peças teatrais O homem, as massas e Os maquinoclastas, de Ernst Toller, ferem em cheio esse problema, resultado de um boom tecnológico e industrial, que teria por consequência a busca sequiosa de nações da Europa por expansão de mercado e fornecimento de matéria-prima mediante guerra de proporções até então jamais vistas, a que ocorreu entre 1914 e 1918. Toller abre Os maquinoclastas, obra contemporânea da Semana de Arte Moderna paulista, pondo em cena Byron a proferir seu discurso pró-ludista, pelo que é atacado verbalmente pelos demais lordes. Ridicularizado por entender mais de poesia do que de política, o poeta inglês, na breve introdução, que propõe a justaposição de duas épocas (o início do século XIX e o início do XX), é voz isolada, incompreendida, mas cônscia e humanitária - características caras ao ethos e ao pathos expressionistas. O dramaturgo alemão chega, em rubrica, a sugerir que o mesmo ator destinado a interpretar Byron encarne também o protagonista, personagem-consciência-do-autor, que não aceita a exploração desumana dos empresários, mas, por outro lado, não é aceito pelo movimento revoltoso dos proletários, e, sendo assim, é-lhe reservado desfecho trágico. Seu assassinato pelos trabalhadores atesta a visão profundamente pessimista (nisso criticamente distante da compreensão histórica do marxismo) de Ernst Toller.

Lord Byron, que acabou sua vida lutando pela Independência da Grécia, amava a liberdade. E viu no ludismo manifesto popular legítimo desse amor. Além do discurso, sobre o qual Leo Huberman tece interessantes considerações, em História da riqueza do homem, o autor de Don Juan também escreveu poema dedicado a Ned Ludd, um dos líderes do movimento maquinoclasta que foi batizado com derivação de seu próprio nome. É digno de nota que Byron, bastante ousadamente, denomina-o de rei-maior, como se pode ler abaixo:

As the Liberty lads o'ver the sea
Bought their freedom, and cheaply, with blood,
So we, boys, we
Will die fighting, or live free,
And down with all kings but King Ludd!
When the web that we weave is complete,
And the shuttle exchanged for the sword,
We will fling the winding-sheet
O'er the despot at our feet,
And dye it deep in the gore he has pour'd.
Though black as his heart its hue,
Since his veins are corrupted to mud,
Yeat this is the dew
Which the tree shall renew
Of Liberty, planted by Ludd!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Marilyn Manson e o expressionismo

Quis não publicar este post, mas não resisti. É que a multi-arte de Marilyn Manson propõe diálogos ostensivos com o expressionismo alemão. No que se refere à discografia, o sexto álbum The golden age of grotesque, de 2003,  parte de ampla pesquisa sobre a década de 1930 norte-americana e europeia, com especial destaque à Alemanha de Hitler, que combateu o que denominaram de "entartete Kunst" ("arte degenerada"), ou seja, o expressionismo. A proposta de Manson, ao ter lançado o disco, é descascar a crosta dos anos transcorridos de lá para cá e mostrar que nossa época revive, conquanto em moldes diferentes, a censura, o fascismo, o grotesco da primeira metade do século passado. É claro que o artista coloca na mesma mala semântica do grotesco tanto a arte vanguardista muito inspirada na marginalidade social e cultural dos cabarés, nas perversões, no temário mórbido, quanto a sociedade que se chocava com esses ideais artísticos. Para uma boa análise comparativa entre o álbum de 2003 e a década de 1930 recomendo o texto Arte degenerada e fascismo.

Aqui me dedico às ressonâncias expressionistas visíveis na pintura do roqueiro norte-americano. Marilyn Manson - nome artístico de Bryan Hugh Warner - pinta com tinta guache, abordando o tema da violência em várias de suas expressões (a arma, o nazismo, a deformação, a mutilação), a nudez, a perversão, bem como a cultura pop e erudita, se é que ainda é legítimo hoje em dia insistir nessa separação. Recorrendo a formas grotescas, que se dissolvem em cores esmaecidas pelo papel, graças à técnica de dissolução da tinta em água, Manson atinge resultados que, sem dúvida, homenageiam o expressionismo. A homenagem se reforça, na medida em que suas telas, ao satirizarem Hitler e o nacional-socialismo, propõem-se à revanche quanto à perseguição de que os vanguardistas e suas obras foram vítimas. Em setembro de 2007, ocorreu exposição dos trabalhos do roqueiro norte-americano, que marcou presença, aproveitando o show de divulgação do álbum Eat me, Drink me. O título da exposição era Flores do mal, referência a esse que, decerto, é um dos precursores da concepção expressionista. Abaixo, alguns dos trabalhos de Manson, disponíveis em seu site http://marilynmanson.com/art/paintings:

CAN'T SALUTE



TWINZ



TRISMEGISTUS



EVERYONE HAS THEIR BLUE PERIOD



ELIZABETH SHORT AS SNOW WHITE YOU'RE SURE YOU WILL BE COMFORTABLE



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Um poema de Iwan Goll

Johann von Goethe, que atravessou o território pré-romântico do Sturm und Drang para o classicismo de Weimar, asseverou em tom imperativo que, em matéria de arte, mesmo que cada um a seu modo, todos deveriam ser gregos. E não é que até o euromodernismo, de índole tão renovadora, tão revolucionária, não resistiu à tentação de retomar a cultura clássica helênica? Exemplo contundente disso é uma das obras mais emblemáticas da ousadia modernista europeia, o Ulisses de Joye, paródia atualizante da Odisseia de Homero. Embora distante do empenho iconoclasta da década de 1920 brasileira, Jorge de Lima não deixa de atestar a validade do que vamos dizendo, com seu A invenção de Orfeu. O poema abaixo transcrito (1918), de Iwan Goll, aliás, tematiza também justamente o mito - tão caro à literatura - do amante de Eurídice. Trata-se de um dos poemas, enquadrados no expressionismo alemão, que mais me tocam, pela simplicidade, pelo humor melancólico, pela construção metafórica de uma esperança inútil, pelas imagens que trazem o maior músico e poeta da mitologia grega ao mundo burguês e sem paz das primeiras décadas do século XX. É curioso como, muitas vezes, os expressionistas produziram uma arte engajada, ansiosa de uma melhoria, mas descrente de que isso viesse a acontecer de fato. Goll, diga-se de passagem, é daqueles casos de estrangeiros que compuseram o expressionismo germânico. O poeta, de nome verdadeiro Isaac Lang, nasceu na França. Seu poema segue na tradução de Claudia Cavalcanti (uma boa pedida para um início de carnaval):


O NOVO ORFEU

Orfeu
Músico do outono
Embriagado do mosto de estrelas
Ouves a Terra girar
Hoje com mais força que sempre?
O eixo do mundo enferrujou
À tarde e de manhã as cotovias voam para o céu
Procuram em vão o infinito
Leões entediam-se
Riachos envelhecem
E os miosótis pensam em suicídio

Cansada está a boa natureza
Diluído o oxigênio de eternas florestas
É sufocante o ozônio das alturas
Nuvem chove e deseja a lama
Homem sempre volta aos Homens

Eterno para nós é o destino
Eurídice:
A mulher a vida incompreendida
Todos são Orfeu

Orfeu: quem não o conhece.
1,78 m de altura
68 quilos
Olhos castanhos
Testa estreita
Chapéu engomado
Certidão de nascimento no bolso do casaco
Católico
Sentimental
A favor da democracia

E músico de profissão
Esqueceu a Grécia
E o canto matinal do alcião
A sombria tristeza dos cedros
O casamento das flores
E tanta amizade de riachos ameninados.

De que lhe valem hoje genciana e camurça
Os Homens estão na miséria
Prisioneiros de profundo submundo
Em cidades de argamassa
De lata e papel
Ele precisa libertá-los
Os pobres de lua de vento e de pássaros

Senhor, para
Tu, em bem talhado fraque
Pare: apresenta o coração!
Cultura centro-europeia
Com imperiais coroações
Empresas construtoras
Lutas de boxe

Ó contemporâneo, meu prezado senhor!
Orfeu veio a ti
Das colinas gregas
Para o atalho do cotidiano
Desceu o novo poeta

Encontra-o em toda parte onde lábios anseiam
Onde corações passam fome
Ele cobre com música, como um abraço quente,
Todas as tuas dores do mundo
Orfeu canta aos Homens a primavera

Na quarta-feira entre meio-dia e meia e uma e meia
Como tímido professor de piano
Liberta uma moça da avareza da mãe

À noite em ambientes mundanos
Entre yankee girl e encantador de serpentes
O terceiro número é o seu couplet sobre o amor humano

À meia-noite um palhaço
No circo dourado de sol
Ele acorda com grande timbale os que dormem

Aos domingos ante as ligas de guerra
No salão de dança ornado com carvalho
O maestro das canções de liberdade

Esquelético organista
Em silenciosas sacristias
Toca docemente órgão para Meninos Jesus

Em todos os concertos por assinatura
Com Gustav Mahler
Atravessa cruelmente os corações

No cinema do subúrbio, ao martírio do piano,
Deixa o coro dos peregrinos
Lamentar a morte da Virgem -

Gramofones
Pianolas
Órgãos
Espalham a música de Orfeu

Na Torre Eiffel
Em 11 de setembro
Ele dá um concerto radiofônico

Orfeu torna-se um gênio:
Viaja de país em país
Sempre no carro-leito

Sua assinatura facsimilada
Para álbuns de poesia
Custa vinte marcos

E de Atenas vai para Berlim
Através das auroras alemãs
Lá espera na Estação da Silésia
Eurídice! Eurídice!
Lá está a saudosa amada
Com o seu velho guarda-chuva

E amarrotadas luvas
Tule sobre o chapéu de inverno
E na boca batom demais
Como antigamente
Sem música
Pobre da alma
Eurídice: a humanidade não libertada!

E Orfeu olha em volta
Ele olha em volta - e já quer abraçá-la
Tirá-la pela última vez do seu Orco:
Ele estende a mão
Levanta a voz
Em vão! A multidão não o ouve mais
Ela recua para o submundo o cotidiano o sofrimento!
Orfeu sozinho na sala de espera
Parte com uma bala o coração em dois!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Wagner e o expressionismo

Aproveito o ensejo da efeméride (exatamente um ano antes de festejarmos o bicentenário de nascimento de Richard Wagner) para, mais uma vez, destacar outro nome que influenciou na constituição artístico-ideológica do expressionismo alemão. Na verdade, o impacto da obra wagneriana foi multifacetado: alcançou, além da música, a literatura e as artes plásticas, para não dizer a filosofia - quer queira, quer não, todo o Nietzsche zaratustriano impõe-se como discurso anti-Wagner. Baudelaire e Mallarmé foram notórios admiradores do compositor de Tannhäuser e, por conseguinte, o simbolismo deve algumas coisas a ele. No caso dos expressionistas, Richard Wagner contribuiu com o célebre conceito de Gesamtkunstwerk, obra de arte total, no qual - verdade seja dita - o aniversariante de hoje não investiu prolongado entusiasmo. Mas a ideia de totalidade almejada por parcela do expressionismo, sobretudo os integrantes de Die Brücke, ia muito além do congraçamento de mais de uma linguagem artística: era a de conciliar a arte com a vida, ou seja, a de esteticizar a existência. A rebeldia do pintor andava de mãos dadas com a rebeldia civil. Esse também era um anseio wagneriano, expresso na etiqueta de Bayreuth: não aplaudir as apresentações dos dramas musicais, aos quais se deve assistir não como espetáculo, mas como ritual de contornos místicos. Nunca fui à Colina Verde, porém acredito que isso não seja respeitado há muito tempo. A frustrada pretensão wagneriana de transformar a sociedade, na tentativa de alçar a arte ao estatuto de religião ressoa na expectativa expressionista do novo homem, cuja ascensão ingenuamente se acreditou começar com a Primeira Guerra Mundial. O trauma com que vários expressionistas se depararam no front converteu quase todos os que não morreram nessa catástrofe bélica em eminentes pacifistas, conversão talvez homóloga à de Wagner, de revolucionário anarquista siegfridiano a cristão parsifalesco.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Edvard Munch

Um bom índice de popularidade (efêmera, perene ou imorredoura) de uma obra de arte é decerto a existência de paródias. A depender disso, a tela O grito, a mais famosa do norueguês Edvard Munch, tem assento cativo no imaginário cultural do mundo. Até o Homer Simpson já posou na condição desse homem desumanizado pela tortura de viver, mas reumanizado pela mais primitiva e extrema manifestação da linguagem humana: o grito. Tal a força expressiva desse quadro em especial e de outros também pintados na década de 1890, que Munch tornou-se um dos maiores senão o maior precursor do expressionismo alemão. Mas não apenas isso: o recurso a cores muito vivas, no mais das vezes primárias, e a deformações na esfera da mímesis fez também do pintor escandinavo uma inspiração para o fauvismo na França. Atenho-me, contudo, ao que se refere ao caráter pré-expressionista de Munch. Observemos três telas suas, sobre as quais tecerei um comentário breve:

O GRITO


FRIEDRICH NIETZSCHE



MADONNA



Essas três obras bastam para compreendermos a importância de Munch para os expressionistas. Na primeira, temos a tematização do que se considera o gesto-síntese do expressionismo: o grito. Buscando uma linguagem concebida como primitiva, donde o fascínio pela arte africana, por desenhos de criança e de deficientes mentais, com o objetivo de alcançar uma comunicação a mais universal possível, e, está claro, anti-racional (ou irracional), antiburguesa, essa vanguarda modernista elegeu o grito como ato de desespero, fruto de uma sufocação social e senso de solidão e incompreensão, que apenas o advento de um novo homem, pós-apocalíptico, poderia eliminar. O homem que grita na tela de Munch, num efeito cromaticamente sinfônico (as cores berrantes, as formas torcidas, o rosto horrendo, não humano da figura, tudo isso está gritando), é um ser solitário, vítima da indiferença de um casal que se aproxima e representa toda a sociedade. A ideia de novo homem, no contexto europeu das primeiras décadas do século XX, facilmente nos recorda do Übermensch (o além-homem) de Nietzsche, homenageado naquele famoso retrato. Esse ser humano proposto pelo pensador alemão, que vive para além do bem e do mal, livre das amarras da noção de sujeito e identidade e de códigos morais, falou bem alto aos corações dos jovens artistas do expressionismo, que se entregaram, no mais dos casos, tanto na arte quanto na vida, à liberdade sexual (até a perversões), às drogas, enfim, a tudo que chocasse o way of life burguês. Desse modo, temos a Madonna de Munch - uma de suas versões, na verdade - aureolada pela vermelhidão da sensualidade, do erotismo que despe e dispõe todo o corpo da mulher na tela.

É isso um pouco do que esclarece o porquê de Edvard Munch ter responsabilidade nos rumos expressionistas da pintura.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Aniversário de Alban Berg

É, no mínimo, curioso que, ao entrarmos em contato com o expressionismo alemão, vamos conhecendo diversos nomes não propriamente alemães e, contudo, expoentes dessa vanguarda modernista. Kandinsky, o pintor que expandiu as técnicas e a teoria expressionista para o abstracionismo, era um emigrante russo residente na Alemanha, onde se consagrou o que é para a posteridade. A Áustria, todavia, parece ser a campeã de berço de expressionistas alemães, ou, afinal, diremos melhor, germânicos: ainda na pintura, podemos citar Oskar Kokoschka (integrante de um dos dois grupos mais importantes para a formação e divulgação do expressionismo, Die Brücke); na literatura, o grande poeta Georg Trakl; na música, ninguém menos que Arnold Schoenberg e de seus célebres alunos Webern e Alban Berg, cujos 127 anos de nascimento hoje se comemoram.

Alban Maria Johannes Berg nasceu em Viena e, tendo tido como professor de composição o criador do dodecafonismo, como disse acima, acabou engajando-se na revolução vanguardista musical encampada por Schoenberg. São três as suas obras mais conhecidas: o Concerto para violino, constituído de dois movimentos, e as óperas WozzeckLulu, esta inconclusa. Considera-se Alban Berg o mais acessível compositor da chamada Segunda Escola de Viena, na qual se agrupam também Schoenberg e Webern. Com efeito, Berg conserva-se consideravelmente nas faixas da música tonal, soando em certos momentos de modo bastante neo-romântico - caso especial de seu Concerto para violino. Vale observar que o libreto de Wozzeck baseia-se em drama de autor que, em alguma medida, se enquadra no romantismo, Georg Büchner (1813-18367), reivindicado pelos expressionistas como um precursor. Adorno, maestro e musicólogo que estudou com Alban Berg, vindo a dedicar-lhe vários artigos, intitulou-o "mestre da transição mínima" e o situa ao lado de Schoenberg, em Filosofia da nova música, na vanguarda progressista em oposição à restauração stravinskiana, já domesticada pela indústria cultural.

Lauro Machado Coelho ensina que a obra de Alban Berg coloca-nos diante de parcela das "produções mais substanciosas em que se reflete essa arte [a expressionista] de subjetivismo extremado, que supõe a rejeição das formas e técnicas tradicionais", embora o musicólogo paulista jamais perca a oportunidade de frisar que o expressionismo na músical não se ateve ao atonalismo, antes englobaria compositores que abraçaram o legado de Richard Strauss, Gustav Mahler, ainda presos à composição tonal.

Para concluir este post, gostaria de citar excerto de Filosofia da nova música, no qual Adorno rebate a acusação de que se ouve o que compuseram um Schoenberg, um Alban Berg com o cérebro, e não simplesmente com o ouvido. Diz quanto a isso o autor da Escola de Frankfurt:

"[...] Argumenta-se como se o idioma tonal dos últimos trezentos e cinqüenta anos fosse 'natureza' e como se fosse ir contra a natureza superar o que está bloqueado pelo tempo, sendo que o próprio fato de tal bloqueio é testemunha precisamente de uma pressão social. [...] a afirmação de que as obras-primas da música moderna são mais cerebrais e têm menos caráter sensível do que as tradicionais representa uma pura projeção da incapacidade de compreender."

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A propósito de uma biografia de F. Kafka

Gosto demais de biografias. Quando tratam da vida de algum artista, de algum escritor, de algum músico que me interessa, minha leitura é voraz. Neste 2012, já li duas: a de pe. António Vieira por Ronaldo Vainfas, e a de Cláudio Manuel da Costa por Laura de Mello e Sousa. Ambas excelentes integrantes da série Perfis Brasileiros, publicada pela Companhia das Letras. Ainda em fins de 2011, naquela quase sebástica espera pelo avião em conexão, no aeroporto de Brasília, cansadíssimo por uma anterior viagem de ônibus de 16 horas, encontrei numa livraria o Kafka, a marca do corvo, de Jeanette Rozsas (Geração Editorial, 2010). Desconhecia até então o livro. No desespero por algo que me distraísse durante mais cinco horas aguardando, comprei-o e o fui lendo.

Não obstante as muitas ressalvas, a crítica costuma apontar na obra kafkiana elementos que indicam ligação com o expressionismo, efervescente na época em que o escritor tcheco produzia. Sua Carta ao pai,  por exemplo, registro que alcançou o estatuto de literatura, realiza um dos mais importantes topos expressionista: o conflito entre pais e filhos, o que nos dá boa dimensão do quanto essa proposta vanguardista modernista envolvia não apenas a esfera artística, mas também a social e familiar. Também o universo opressor, regido por leis incompreensíveis e absurdas, que, por vezes, tocam o sobrenatural, como acontece no famosíssimo A metamorfose, traem características e procedimentos narrativos do expressionismo. Cumpre observar que Kafka conviveu com autores e artistas bastante afinados com essa corrente modernista, dentre os quais Max Brod, amigo mais próximo do autor de Na colônia penal.

E a biografia de J. Rozsas - vale a pena ser lida, afinal, na minha opinião? Vale. Para quem se interessa pelo escritor e desconhece sua vida, vale a pena, sim. O livro foi contemplado pelo Prêmio FNLIJ de 2010 e a publicidade editorial, que, ademais, apostou no inquestionável quociente pop de Kafka, insiste na fidelidade histórica impoluta da realização da biógrafa. Importa aqui ter em mente que se trata de uma biografia romanceada. O velho Henry James dizia, sobre o romance histórico, que ele "necessariamente falha na ilusão da vida". Ajusto esse ensinamento para as biografias romanceadas. Eis o grande senão de Kafka, a marca do corvo. Li-o, incomodado com diálogos que, fiéis à história ou não (se isso é possível, de fato), não me convenciam como ilusão ficcional da vida.